Madeiras brasileiras para arcos


Madeiras brasileiras para arcos

by Robin Hood, in Arqueria


Publicado em 23 de abril de 2026 às 15:15

Quando você pesquisa "melhor madeira para arco" em inglês, aparecem os suspeitos de sempre: osage orange, hickory, yew. Todos são excelentes e praticamente inexistentes no Brasil. Mas a biodiversidade tropical nos deu alternativas que, em muitos casos, superam as clássicas americanas. Este guia é uma análise honesta — com dados — das madeiras brasileiras que funcionam para arco artesanal.

Os três números que importam

Antes de listar espécies, vale entender o que faz uma madeira ser boa para arco. Não é resistência bruta, é a combinação de três propriedades:

  • MOR (Módulo de Ruptura) — quanto a madeira suporta antes de quebrar sob flexão. Mais alto é melhor para libragem. Bom para arco: acima de 100 MPa.
  • MOE (Módulo de Elasticidade) — rigidez. Alto demais = madeira rígida que racha; baixo demais = arco mole sem eficiência. Faixa boa: 10-18 GPa.
  • Densidade — proxy da massa das limbs. Mais denso = mais inércia = arco mais lento. Faixa ideal: 0,7 a 0,9 g/cm³.

A madeira ideal tem MOR alto, MOE médio-alto e densidade moderada. Ipê bate em todos. Pau-d'arco também. Mas há nuances.

Ipê (Handroanthus spp.)

Densidade 0,96 g/cm³. MOR ~175 MPa. MOE ~22 GPa. Se você traduzir esses números, vai ver que o ipê é excessivamente denso e rígido para um arco comum. É a madeira usada em decks justamente porque não flexiona.

Como usar mesmo assim? Em limbs finas e largas (tipo paddle / pyramid), ou como ventre de arco laminado com backing de bambu ou fibra. Ipê puro em design de arco longo tradicional sofre set pesado. Ipê como ventre laminado dá arcos de disparo explosivo — armazena muita energia se corretamente tillerado. Não é madeira para o primeiro arco.

Jatobá (Hymenaea courbaril)

Densidade 0,90 g/cm³. MOR ~135 MPa. MOE ~18 GPa. Esta é uma das melhores candidatas absolutas para arco artesanal brasileiro, e inexplicavelmente subutilizada.

O jatobá tem todos os números perto do ideal, grão geralmente reto, disponibilidade razoável em madeireiras do centro-sul e nordeste, e aceita tillering tradicional de arco longo sem drama. Não exige laminação. Perfil de resposta parecido com o hickory americano — madeira generosa, perdoa erros do iniciante.

Atenção na escolha da tábua: rejeite peças com grão entrecruzado (interlocked grain). Jatobá de má qualidade racha feio. Procure tábuas onde as linhas dos raios medulares são paralelas à face.

Pau-d'arco (Tabebuia spp.)

O nome em português diz tudo. É a madeira que os indígenas usavam para arcos há séculos, e não por acaso. Densidade 0,92 g/cm³, MOR ~150 MPa, MOE ~20 GPa.

Números similares ao ipê — na verdade, botanicamente há sobreposição entre espécies chamadas "ipê" e "pau-d'arco". Mas o pau-d'arco "original" dos povos originários era mais fino, colhido de árvores menores, com grão mais reto que o ipê comercial de hoje.

Se conseguir uma tábua de pau-d'arco com grão realmente reto, você tem em mãos uma madeira equivalente ao osage orange norte-americano — talvez a melhor madeira para arco do continente. Mas é difícil achar. O que se vende como "pau-d'arco" em madeireira muitas vezes é ipê renomeado.

Garapeira (Apuleia leiocarpa)

Densidade 0,83 g/cm³. MOR ~130 MPa. MOE ~17 GPa.

Subestimada, comum em madeireiras do sudeste e nordeste. Numericamente parecida com o jatobá, grão bonito amarelado. Faz arcos de bom desempenho e estética excelente. Aceita tillering tradicional. Se você encontrar tábua limpa, é uma das apostas mais seguras depois do jatobá.

Peroba-rosa (Aspidosperma polyneuron)

Densidade 0,77 g/cm³. MOR ~100 MPa. MOE ~13 GPa.

Peroba funciona, mas é madeira de limbs robustas. Densidade relativamente baixa é bom (arco leve), mas MOR no limite inferior do aceitável exige seções mais grossas, o que acaba pesando. Boa para arcos de baixa libragem (até 30#), especialmente para iniciantes. Perdoa erros mas não entrega alto desempenho.

Aroeira (Myracrodruon urundeuva)

Densidade 1,20 g/cm³. MOR ~180 MPa. MOE ~22 GPa.

Números de guerra. Aroeira é densa demais para arco longo, mas excepcional como ventre de arco laminado — superior até ao ipê em compressão. Pode ser a melhor madeira brasileira para laminado ventre-costas com backing de bambu. Dificuldade: obter tábua seca, reta e sem nós — aroeira é árvore irregular.

Bambu (sim, ainda que não seja madeira)

Mossô, dendrocalamus, guadua. Densidade variável, mas propriedades de flexão excepcionais, especialmente em compressão/tração combinadas. Melhor para backing (costas) de arcos laminados, ou como arco sólido de um único membro (board bow de bambu rachado). Separei em post próprio porque merece tratamento específico.

As armadilhas da madeireira

Comprar madeira para arco numa madeireira comum tem problemas específicos:

  1. Venda por m³. Madeireira não vende 2 metros de tábua boa — vende pacote. Procure lojas especializadas em pequenos marceneiros ou serrarias que aceitam venda fracionada.
  2. Secagem em estufa rápida. Madeira para arco deve secar lenta. Tábua de estufa tem tensões internas que aparecem quando você começa a remover material no tillering. Prefira secagem ao ar ("ao tempo"), 2-3 anos idealmente.
  3. Renomeação. "Pau-d'arco" vira ipê, "cedro" vira qualquer coisa, "jatobá" pode ser jutaí. Leve um identificador confiável (densidade aferida, cor do cerne) ou compre de serrarias com rastreio.

Como selecionar uma tábua

Independentemente da espécie, seis critérios:

  1. Grão reto paralelo à face — nada de "snaking" ou grão cruzado.
  2. Sem nós na área que virará limb.
  3. Anéis anuais visíveis e uniformes (quando a espécie tem anéis distintos).
  4. Sem manchas escuras (fungo), sem furos (caruncho), sem rachaduras nas pontas.
  5. Som limpo ao bater — madeira seca e íntegra "canta"; madeira com defeito interno soa abafada.
  6. Corte radial (raios paralelos à face) é melhor que tangencial para arcos.

Dimensões brutas para começar

Para um arco longbow tradicional de 1,80 m, 45# em 28":

  • Comprimento: 1,90 m (para sobra nas pontas)
  • Largura: 4 cm (constante do handle ao meio da limb, afinando para 1,5 cm nas pontas)
  • Espessura bruta: 2,5 cm (será reduzida progressivamente no tillering)

Essas dimensões assumem jatobá ou garapeira. Para ipê ou pau-d'arco, reduza a largura para 3,5 cm. Para peroba, aumente para 4,5 cm e cogite backing.

Recomendação final

Se é seu primeiro arco em madeira: jatobá. Se quer desempenho premium com técnica: pau-d'arco (verdadeiro) ou laminado de ipê com bambu. Se quer algo exótico e elegante: garapeira. Se quer fazer um arco histórico autêntico: pau-d'arco — o nome não é decorativo, é etnobotânico.

A melhor madeira para arco, no fim das contas, é aquela que você consegue obter seca, reta, limpa, e que respeita sua experiência de tillering atual. Uma tábua excelente de peroba vai te ensinar mais que uma tábua ruim de ipê.


Sugestões de imagens

Imagem de capa — Amostras de madeira: Cinco pequenos blocos lado a lado (ipê, jatobá, pau-d'arco, garapeira, peroba) com etiquetas, mostrando diferenças de cor e grão.
Referência: Foto original recomendada.

Imagem 2 — Corte radial vs. tangencial: Diagrama simples do tronco mostrando os dois tipos de corte e o padrão de grão resultante.
Referência: Wikimedia Commons — Wood grain

Imagem 3 — Grão reto vs. problemático: Duas tábuas lado a lado: uma com grão perfeitamente paralelo, outra com grão cruzado ou em onda, marcadas com "OK" e "RUIM".
Referência: Foto original com anotações.

Imagem 4 — Arco finalizado de jatobá: Longbow em madeira amarelada finalizado com óleo, em pose artística.
Referência: Unsplash — Wooden bow

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